Show info
Trópico

(41) 4022 3322
contato@tropico.tv

Da esquerda pra direita Marcos Serafim (Som Direto), Matheus Marco Moraes (Direção), Carla Abrão (Direção de Arte), Rudolfo Auffinger (Assi. de Direção), André Senna (Diretor de Fotografia), Sônia Procópio (Design de Som) e Gabriel Hubner (Ator). Sentado está Roger Batista (Ator). Faltou o Eli Dalcin (Fotógrafo e Operador de SteadyCam) e o Milclei Bizaio Martins (Preparador de Elenco).

Publicado em 9 de dezembro de 2015


Gravações ou o Inventário da Refração

A pré produção do filme foi sempre ameaçada pelo tempo e todo o planejamento se adequava a uma condição metereológica ideal. O clima durante boa parte do mês de janeiro parecia não ajudar, com uma variação que ia de dias nublados a dias chuvosos, com um ou outro momento de sol que normalmente eram usados para os testes de câmera e visitas. E tudo foi cuidadosamente planejado com relação as gravações pensando na tal condição de clima e luminosidade.



Precisaríamos de um apoio invisível, uma confiança quase divina já que além das condições climáticas desfavoráveis na véspera, tínhamos um espaço de tempo pequeno para as gravações. Uma semana a mais significaria o feriado de Carnaval e após isso o retorno das atividades acadêmicas o que de uma forma ou de outra dificultaria ou inviabilizaria o filme. Era preciso estipular a data exata para as gravações e isso foi feito com uma segurança interna, quase intuitiva, na espera desta confirmação. Todas as ordens do dia vinham com a seguinte mensagem em caixa alta: ‘Em caso de chuva e/ou céu nublado não haverá gravação’. Era uma decisão arriscada, mas consciente de que o filme foi projetado visual, narrativa, estética e formalmente para uma apreensão solar que não poderia ser criada artificialmente.


Há uma semana das gravações eu tive uma sensação de que tudo melhoraria, de uma maneira quase irônica, mas ainda assim metafórica. Depois de quase um mês ou pelo menos quinze dias de tempo fechado e escuro, na última sexta-feira de janeiro fui eu, Rudolfo, Sônia e Marcos ao cinema. O filme era ‘Nine’, do Rob Marshall que mesmo desagradando a maioria, inclusive eu, trouxe ao menos uma leve sensação a respeito na crença do fazer. Claro, não era a resistência da crença na imagem de ‘Où gît votre sourire enfoui?’ ou mesmo de um filme de Oliveira, mas havia algo a confiar, pelo menos quanto ao ímpeto infantil de uma certeza anterior a toda uma maturidade da técnica. Antes da sessão quando havíamos acabado de sair de uma reunião com o Marcos justamente firmando de fato sua participação na equipe, a chuva parou por um momento e saiu o sol. No carro indo para o shopping eu notei no céu um arco íris bastante expressivo junto a um pouco ainda nublado. Um arco íris que depois de um tempo deu lugar a um imenso céu dourado que eu fiquei admirando ao lado do Marcos no parapeito de um dos andares. Brincadeiras a parte, na manhã seguinte o sol surgiu como há muitas semanas não fazia e continuou assim até o momento do último corta na última diária.

Foram definidas inicialmente três diárias (dias 04, 05 e 06 de fevereiro) que se tornaram ao final do processo cinco. A primeira mudança se deu justamente pelo aproveitamento do clima. Já que tínhamos ininterruptamente logo nos primeiros dias de fevereiro boas condições de luz para gravar, viajamos já no começo da semana para a locação com o André. Após conversa com ele eu e o Rudolfo decidimos antecipar parte de uma diária que seria feita a tarde na quinta para quarta-feira. Esta parte correspondia a todos os planos que não necessitavam da presença dos atores, ou seja, tudo o que se referia a planos de paisagem ou fenômenos naturais, como os do mirante do Parque Passaúna, o lago, céu, vegetação, além de alguns planos que referenciariam os personagens, mas não precisariam de uma correspondência física rigorosamente exata deles como os planos de mãos feitos com a do próprio André contra a luz do sol e o da mão submersa feita com a minha própria.

‘Prisma’ teve um total de mais de 100 planos gravados além dos 10 set up´s relativos ao uso da steady cam, 6 deles correspondentes a descida e caminhada do Gabriel e 3 iniciais do grande plano sequência do diálogo, cada vez em um personagem e um terceiro em conjunto, além da reversão ao diálogo e ao reencontro correspondendo a mais 3 set up´s. Com esta quantidade considerável de planos, em torno de 113, considerando os inserts e os planos sequência com movimentação e som direto, decidimos antecipar uma diária.

Dessa forma na quarta-feira dia 03/02 foram até o Passaúna eu, Rudolfo, André e Carla para realizarmos todos os planos de ambientação, espaciais, de objetos, ópticos e físicos que não necessitavam da presença do elenco. Algo interessante a respeito de ‘Prisma’ é a equipe está presente visualmente no filme. Há a presença física da mão do André contra o sol, a minha mão submersa no lago, os braços e mãos do Rudolfo num outro momento ou mesmo a caligrafia da Carla na citação que afunda.

As duas diárias seguintes, dias 04 e 05/02, corresponderam às imagens da espera do personagem do Roger. Uma série de planos da espera, com ele sentado ou caminhando próximo da escadas de tocos de madeira, interagindo sutilmente com o ambiente, pensando e dando ao seu corpo esta suspensão da dupla visualização, dele no espaço tanto físico quanto o imaginado/aguardado como o do espectador.


Com Roger ficamos toda uma manhã decomposto sua espera com a câmera. Durante a tarde nos deslocamos para outro ponto do parque, o que chamamos de caminho, que correspondia ao trecho percorrido após o encontro dos dois e no qual acontecia todo o diálogo. Escolhemos o período da tarde porque ele corresponderia melhor ao mesmo período da diária de sábado quando seria gravado com a steadycam todo o diálogo. Na tarde do dia 04 além da equipe de quarta e do Roger foram até a locação o Gabriel e a equipe de som, Sônia e Marcos, que saíram em busca da captação de folley e sons ambientes.

 


Paralelamente nós gravamos uma série de inserts que eu chamo de ‘planos over’, ou seja, como se tivessem a função de uma voz over, fazem parte de um grau visual acima da naturalidade da dramaturgia contínua da cena, podem ser interpretados como uma outra versão do acontecimento, uma variação especial, uma criação imaginativa de um os dos personagens, como um pensamento, um desejo durante a conversa, como uma lupa, uma sutil distorção do fato enquanto ele ocorre. Por isso esses planos têm correspondência ao que ocorre no diálogo, como a mão e braço no cumprimento, os olhares e o próprio beijo que aqui nos inserts ganham um distanciamento visual, como se estivessem acima do acontecimento considerado ‘real’, deslocados ou posados e não fizessem parte da cena propriamente dita.

 

Em ‘Prisma’ há sempre esses vários níveis de imagem ou da percepção, os interiores e exteriores, as várias camadas interpretativas e sensoriais do visto, existe um real, mas há também o imaginado ou sonho, o reflexo ou inversão, a projeção, o retorno, os ‘comentários’ relativos ao desejo ampliando o real natural etc.

Já na sexta dia 05 tivemos a primeira participação no set do Elisandro Dalcin que foi nosso operador de steadycam nesta e na diária seguinte. Na manhã de sexta gravamos com a steady mais planos relativos a espera do Roger e outros planos com o Gabriel.


Fizemos isso para aproveitar a mesma luz que tivemos naquele ponto do parque no dia anterior correspondendo ao tempo narativo e aproveitando o equipamento que inicialmente seria usado apenas no sábado em todo o plano sequência do diálogo e a própria disponibilidade do Eli com seu entusiasmo ao projeto e e grande profissionalismo.


Ainda na sexta após uma tarde com o Rudolfo decidindo as estratégias do diária seguinte, considerada a mais complicada, que exigiria a maior logística, retornamos ainda no final do dia à locação com Sônia para ela captar mais alguns sons do Parque, num horário diferente.

No sábado dia 06 tivemos a diária mais difícil e talvez por isso a mais esperada e excitante em termos de produção e direção. Seria gravada naquele dia todos os planos com a steadycam incluindo o plano sequência triplo no qual acontece todo o diálogo do filme. Para isso tivemos a equipe completa. Enquanto na entrada do Parque próximo da escada para o Mirante uma parte dela ficava cuidando dos preparativos do plano da caminhada do Gabriel, lá embaixo no caminho outra parte preparava a base da produção já que a maior parte da diária aconteceria lá.
Steadycam devidamente balanceada e pronta no Eli, fomos até a descida dos carros para a gravação dos planos em que o Gabriel vai de encontro ao ponto onde Roger o esperaria. Mesmo tendo em mãos um documento da Secretária de Meio Ambiente com permissão para gravar na área do Parque e a ajuda e vistoria dos seguranças, havia a difícil tarefa de obstruir o trânsito de turistas, naquele primeiro momento o de carros que subiam e desciam e posteriormente o de pessoas. A dificultade consistia no fato de existir somente um caminho ali tanto para os carros (o outro era na outra extremidade do parque) como o das pessoas no caminho onde seria feito o diálogo, já que de um lado havia o lago ou repressa do Passaúna e do outro vegetação cheia.
Na descida dos carros ficou Rudolfo em cima logo no começo do percurso e Carla e Milclei ficaram lá embaixo no final do trajeto. Entre um ponto e outro ficaram eu, André que auxiliava o Eli na condução dos passos já que o terreno não era o mais liso e plano e o Gabriel. O plano consistia no movimento do caminhar do Gabriel e na duração deste movimento no espaço. Ele foi decomposto da seguinte forma pensando na estrutura das telas: um longo plano dorsal e aberto dele caminhando e quatro planos em movimentação com duração próxima da metade deste longo plano central, sendo dois contra plongeés das árvores do lado direito e esquerdo da descida mais dois planos laterais do Gabriel, o seu perfil direito e esquerdo enquanto caminha. Os planos duravam em média quase dois minutos e durante este tempo eu gritava tanto ao Rudolfo no início quanto a Carla no final para que o trânsito fosse parado durante aquele tempo para então ser liberado novamente ao final do take. Feito isso gravamos um frontal do Gabriel chegando propriamente ao Parque que exigiu uma cuidadosamente movimentação com a steady já que o Eli caminhava de costas num terreno de descida, com pequenas pedras e num determinado momento fazia uma curva e descia um declive ainda mais acentuado enquanto Gabriel desce pequenas escadas e entra no caminho do passeio.

Gravados esses planos partimos para o ponto do caminho no qual o diálogo seria gravado. Toda a engenharia da produção correspondeu bem, tendo mais uma vez a dificultade, talvez agora maior, de interromper o fluxo de pessoas durante a gravação do plano. A diferença é que o número de pessoas caminhando no relativo estreito caminho era maior num dia agradável como aquele em pleno final de semana de férias do que o de carros na entrada e o plano sequência a ser gravado tinha um duração média de oito minutos conforme todos os ensaios. Ou seja, durante aproximadamente este tempo, consideravelmente longo, nós tínhamos que suspender um bom número de turistas nas extremidades do trecho no qual o diálogo aconteceria, com marcações bem definidas espacialmente para os atores e ainda todo o aproveitamente e continuidade de luz solar.


O importante é sempre estar preparado para possíveis contratempos que no nosso caso foi a mudança no eixo da gravação após uma conversa com o Eli já que o reflexo solar que incidia na superfície da represa trazia uma luminescência de maior beleza, sendo muito mais interessante ao plano que ele acontecesse do sentido inverso ao planejado anteriormente. Dessa forma decidi rapidamente pela mudança em favor do filme, mesmo que isso causasse um ligeiro atraso na ordem do dia e assim comuniquei a equipe e alteramos todo o eixo que correspondia a inversão ou recolocação dos equipamentos e todo o espaço da produção, bem como readequar a ação dos atores tendo uma pequena variação das marcas, sem afetar as pausas e movimentações correspondentes ao espaço.

Os planos sequência de diálogo foram divididos a partir da seguinte nomenclatura: A1, A2 e A3 para diferenciá-los em numeração da infinidade de outros planos. Assim cada um desses set up´s correspondiam a um tipo de enquadramento, sendo um fechado no Gabriel, outro no Roger e um terceiro conjunto que foi o que optamos por começar a partir do planejado. Este plano conjunto, mais aberto, de ambos foi o que conseguimos felizmente com uma melhor luz e continuidade da sequência, sendo realizado como um grande master. Nos takes nos planos individuais nos quais eles continuavam interpretando um com o outro surgiram certas dificultades com relação às pessoas que passavam no local, fazendo com que alguns dos planos fossem cortados. O que na prática não trouxe tantos problemas pelo fato de que durante todo o diálogo as telas laterais e a central serão preenchidas por outras imagens, não problematizando assim o eventual corte no meio do diálogo. No final a experiência deste pequeno tour de force de quase dez minutos com a steadycam e toda a equipe de fotografia, som, direção e assistentes caminhando para trás calmamente, as mudanças de luz solar e a tensão das pessoas a espera do final do plano que tem um especial beijo entre eles valeram expressivamente.

Havia só mais um problema ao final desta diária. Mesmo seguindo rigorosamente a ordem do dia, houve durante a gravação dos planos sequência de diálogo, três, em vários takes, pequenas, mas visíveis, alterações de luz, sendo uma provocada por uma novem pesada em frente aosol que durou quase quinze minutos além da mudança natural ao longo das horas. Chegamos a conclusão junto ao fotógrafo que um dos planos do diálogo fechados apenas no Gabriel poderia não ter a luz adequada como os feitos no Roger, além de pelo mesmo motivo ter sido inviável realizar a sequência tripla da reversão ou reencontro que precisaria ter uma quantidade de luz muito maior. Dessa forma surgiu a quinta diária, não prevista, mas necessária acordada por toda a equipe para que pudessem ser realizados a última trinca de planos simultâneos do filme.

E o domingo como todos os dias anteriores estava muito ensolarado, só que desta vez como era de se esperar o Passaúna estava muito mais cheio de turistas e visitantes, passeando a pé ou de bicicleta, com famílias inteiras nos quiosques com churrasqueiras, crianças brincando na água e todo um descontrole animado que o contexto favorecia. Apesar desses elementos de possíveis dificultades, a gravação ocorreu com muita naturalidade e rapidez já que eram planos relativamente simples, com um número de falas ínfimo perto dos oito minutos do dia anterior. Após a gravação e desprodução também ágil desta quinta diária retornamos ao centro de Curitiba e no caminho de volta dentro do carro começaram fortes pingos de chuva. Era incrível que exatamente após o último take e o tempo de guardarmos todo o equipamento o céu respirou fundo e começou a chuver novamente. Dali pra frente ironicamente tudo ficou nublado mais uma vez o que faz pensar que realmente além de toda coincidência houve uma sintonia especial para a realização do filme. A luz estava a nosso favor, ao nosso cinema.

, ,