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Circulular

Publicado em 15 de outubro de 2012


O ótimo “Circular”, filme coletivo de cinco jovens diretores paranaenses, estreia nos cinemas

Publicado em Blouin Art Info por Fátima Gigliotti.Circular MarcelCircular Marcel

Em 1994, o badalado diretor americano Quentin Tarantino lançou o igualmente badalado Pulp Fiction, que no Brasil ganhou o subtítulo Tempo de Violência, com o que se identificou, à época, uma narrativa circular, em que o filme conta várias histórias independentes entre si, mas que se ligam ou possuem um fio de conexão entre elas. Tarantino, celebridade hollywoodiana, não foi o primeiro a filmar uma narrativa circular, nem tampouco talvez o que a filmou melhor, mas certamente tornou-a mais popular. É a essa linhagem narrativa que se filia o ótimo Circular, filme coletivo de cinco jovens – e promissores – diretores paranaenses, com cinco histórias que se cruzam num ônibus de uma grande cidade, que estreou nos cinemas de Curitiba e de São Paulo na última sexta-feira.

No filme, a cidade não tem nome, mas as filmagens aconteceram em grande parte em Curitiba, e também em Pinhais e Piraquara, cidades da região metropolitana e onde vivem os diretores. Para quem mora na capital paranaense, será emocionante reconhecer, na telona, locais familiares como a linha do trem, a Praça Tiradentes, o Moinho Rebouças, o Paço da Liberdade. Não são imagens de cartão postal, para garantir a coerência com as histórias narradas, de pessoas comuns. Um dos diretores, Adriano Esturilho, afirma: “A gente vive um momento em que o cinema cresce em Curitiba e nossa população vai, aos poucos, se acostumando com a ideia de ver nossa cidade produzindo imaginário, ideias, imagens”.

Esturilho, e também Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Diego Florentino e Fábio Allon são formados em cinema pela FAP -Escola Superior Sul Americana de Cinema e TV, de Curitiba, diretores de vários curtas-metragens em que desempenharam várias funções do fazer cinematográfico, e donos da produtora Grafo Audiovisual e a Processo MultiArtes, com a qual realizaram Circular, a estreia do quinteto no formato longa-metragem. Em 2007, os cinco amigos tiveram a ideia do filme, com estrutura de filmes pequenos que se interligassem. Criaram coletivamente o argumento, definiram os protagonistas e que eles se encontrariam no ônibus que dá nome ao filme, e foram cada um para sua casa escrever o roteiro da sua história.

No reencontro, uma surpresa. “Havia nas histórias vários elementos em comum, como a incidência de remédios e relações paternais (ou maternais) nas histórias. Identificados esses pontos, tratamos de desenvolvê-los e criar os cruzamentos, essenciais para dar a Circular uma cara de obra única e não uma coletânea de curtas”, afirma Muritiba. Assim nasceu o filme, que ganhou o edital de longa metragem de baixo orçamento do Ministério da Cultura, e cuja unidade narrativa foi mantida pelo roteiro, pela montagem, do também diretor Florentino, e pela exemplar fotografia do veterano Carlos Ebert (O Bandido da Luz Vermelha).

Para Ebert, encarregado da complexa tarefa de dar homogeneidade às imagens captadas por cinco olhares diferentes, o trabalho foi renovador. “Circular é uma experiência única em meus 43 anos de carreira como diretor de fotografia, e me deixou apreensivo inicialmente, mas ao conhecer melhor os diretores e a personalidade de cada um, percebi que, apesar de complexa, era uma tarefa exequível. E que o sonho do grupo de realizar o primeiro longa-metragem era forte o bastante para aliviar as tensões que surgiriam nessa relação tão peculiar”, afirmou o diretor de fotografia.

Quantos dias cabem em um único dia

Em Circular, cabem cinco histórias principais e infinitas outras sugeridas, deixadas em aberto pelos cinco roteiros dos cinco diretores do filme. Aly Muritiba é o “pai” de Carlos (o ator uruguaio Cesar Trancoso, de O Banheiro de Papa), vítima de uma chantagem que transformou seu filho em moeda de troca e deve ser feita no ônibus. Diego Florentino é o “pai” de Samuel (Marcel Szymanski), jovem pastor que cria sozinho a filha pequena após a separação, e pega o ônibus para levar uma cesta básica a uma fiel da igreja que está doente.

Fábio Allon tem uma “filharada” maior, a banda punk Gengivas Podres (Bruno Ranzani, Luiz Bertazzo, Débora Vecchi, Gustavo Pinheiro), que perde um de seus integrantes num acidente pouco antes de entrar em turnê, e toma o ônibus para os últimos preparos. Bruno de Oliveira é o responsável por Lourival (Santos Chagas), o cobrador do ônibus, que tem um filho com deficiência motora e prefere dar aulas de boxe a outras crianças, além de lutar no ringue sem a família saber. E Adriano Esturrilho é o “pai” de Cristina (Letícia Sabatella, que se formou como atriz na cidade e participou do filme como uma homenagem à ebulição e talento da arte curitibana e paranaense), artista plástica combativa que usa como matéria prima de suas peças comprimidos, para criticar a indústria farmacêutica, mas também é viciada neles.

As histórias se conectam no ponto em que passa o Circular e no que se passa no interior dele quando as vidas de Carlos, Samuel, os Gengivas Podres, Cristina e Lourival os levam até lá, reunindo os tempos e as vivências dos personagens num único tempo e numa única história. São roteiros bem construídos, e cada história ganha contornos, estilos e ritmos próprios, distintos, finalmente amarrados – e bem – na trajetória cotidiana daquele ônibus circular, como tantas outras também poderiam se encontrar. Esturrilho, Muritiba, Oliveira, Florentino e Allon compartilharam as assistências de direção um do outro, para qualquer eventualidade e também para garantir a fluidez da narrativa. Funcionou: Circular não é apenas um ótimo filme, como o registro das filmagens em vídeo, que pode ser visto no site oficial da produção comprovam a dedicação dos cinco jovens diretores e de toda equipe e funcionam como aulas de cinema para quem quiser se aventurar na sétima arte. Tarantino devia ter pensado nisso.

Circular

Circuito de cinemas São Paulo e Curitiba

Ficha Técnica:
Direção e Roteiro: Adriano Esturilho, Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Diego Florentino, Fábio Allon
Elenco: Letícia Sabatella, Cesar Troncoso, Santos Chagas, Marcel Szymanski, Bruno Ranzani, Luiz Bertazzo, Débora Vecchi e Gustavo Pinheiro
(Brasil, 2011) – 94 minutos

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